quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Jamais impedirei que me ames, CAP 11


Capítulo 11

O dia deveria ser constituído apenas pala manhã, pelo menos aquele dia deveria ser assim. Aquela manhã com Edgar foi perfeita.

Quando eu era garoto, sempre que a felicidade me batia a porta eu pensava que a tristeza me visitaria mais tarde, e desta vez não foi muito diferente, pelo menos foi o que pensei. No final da tarde resolvi ir a praia, fui pra passear, ver o pôr do sol, alem é claro de ver gente bonita, mais precisamente homens bonitos, para todos os gostos, negros, morenos, loiros. Este é o momento mais lindo do dia, o crepúsculo. O que eu não poderia prever era a presença de Mateus em um dos bares da orla. Encarei com tranquilidade, tentando impor ao meu coração que se comportasse. Quando ele me avistou pulou da cadeira e aparentemente ébrio, titubeando foi até mim e me abraçou fortemente. O cheiro da cachaça, mais precisamente caipirinha, me embriagou. Sentamos e conversamos sobre o que estava acontecendo:

- como pode Mateus, você ficar bêbado sem motivo?

- como sem motivo, Fred, eu amo você e você não me quer! Isto é um bom motivo para mim. Não acha?

- não. Afinal, se você me quisesse mesmo, você teria me dito sim, quando pôde.

- é verdade, mas só Te dei valor quando te perdi.

Fiquei calado por algum tempo, nossos olhos, fixos, revelavam nossos corações. Mas o que estava acontecendo? Pela manhã estava morto de paixão pelo Edgar e agora estava desfalecido diante do olhar de Mateus.

- você não vai dizer nada?

Mateus mal terminou de falar e já foi levando seus lábios nos meus. Todo o que eu acreditava ser belo foi reforçado naquele momento, coração vagabundo, era o que eu pensava. As mãos de Mateus percorriam meu corpo com uma voracidade que me arrepiava todos os pêlos, seu beijo me sugava de forma que eu poderia ver tudo o que há de salivante em mim motivando a força e a intensidade de cada carícia.

Sempre critiquei o comportamento dos Gays do gueto, quando transam em Darkroom ou em banheiros, ou até mesmo em ruas. Mas meu pensamento mais puro era ir pra qualquer lugar e extrair de Mateus todos os seus sabores de todas as formas.

Fomos parar no banheiro do bar, afinal de contas não dava pra continuar na mesa, próximos dos outros clientes do bar. Eu não poderia acreditar que finalmente transaria com Mateus, ele era conhecido como, garoto do taco de baseboll. Tudo porque num evento da igreja, no banheiro masculino, os garotos fizeram um campeonato pra ver quem tinha o maior Pinto e adivinha quem ganhou? Isto mesmo, o garoto do taco de baseboll. Mas voltando ao banheiro do bar. Finalmente o taco de baseboll estava em minhas mãos. Tínhamos que ser rápidos, nossos corpos em chamas, suados, nossos beijos cada vez mais intensos, minha sorte é que ele tinha uma camisinha em seu bolso, eu não sabia por onde começar, mas não tínhamos tempo pra detalhes, deixei tudo por conta dele que com muita sabedoria soube usar muito bem os 10 minutos que durou nosso grande momento de prazer, daí foi só alegria, ou melhor, dez minutos de alegria. Voltamos, estávamos mais calmos, conversamos muito e nos entendemos.

A tarde se foi, passou da forma mais deliciosa possível. À noite recebi uma ligação, era Edgar, todo feliz, dizendo que me amava e que não parava de pensar em mim. Naquele momento todo o que há de moral, de integridade dentro de mim se escondeu num cantinho bem escuro do meu coração. Eu apenas disse que sentia o mesmo por ele e desliguei.

Um pouco antes de dormi, pensei bem no que acontecera e descobri que não me arrependera do que havia feito, não havia em mim remorso algum, nem pensava ter traído Edgar, o que aconteceu naquela tarde foi apenas um momento de saciar uma sede antiga, de tirar minhas dúvidas quanto ao gosto, ao sexo de Mateus. Tal duvida sempre me consumiu, eu sabia que se aquilo não acontecesse eu morreria bem velhinho ainda querendo saber o gosto do taco de Baseboll.

Em mim, existia a plena consciência que, moralmente, nada daquilo era aceitável. Transar no banheiro de um bar, com alguém que não era meu namorado, mas naquele momento preferi pensar na salivante tarde com Mateus e deixar estas coisas de moral pra depois.

Agora penso que Deus foi perfeito na constituição do dia, manhã, tarde e noite.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Jamais impedirei que me ames, CAP 10


Capítulo 10

Passei a noite sem dormir, me deliciava com a lembrança do que acontecera. Nada poderia ser mais intenso, eu estava me apaixonando pelo cara errado. Mas o coração lá respeita estas coisas?

Vale lembrar que há pouco tempo eu estava sofrendo de amores pelo Mateus. Realmente não era o momento de uma nova paixão. Na manhã do dia seguinte Mateus chegou a minha casa, e para minha surpresa Edgar já havia falado que estava sentindo algo por mim. Mateus parecia pedir satisfações, eu fiquei sem entender, afinal dele recebi o maior fora da minha vida.

Perguntei:
- O que está acontecendo? Afinal você me dispensou e agora não posso ficar com outra pessoa?
- Não é isto, é que ele espancou Clóvis, e você queria vingança.
- Realmente, mas tenho descoberto outro Edgar, todo mundo merece ser ouvido, não?
- Claro. A verdade é que estou morrendo de ciúmes.
Parei, gelei e calei por um tempo, é como se uma tsunami de sensações e sentimentos tomassem conta de mim, como se uma ferida aparentemente sarada fosse aberta violentamente. Não pensei duas vezes e pedi para Mateus sair, eu precisava respirar.

A confusão tomou conta dos meus pensamentos, afinal Edgar me conquistara de uma forma irremediável e agora Mateus acabara de declarar seu amor. Eu definitivamente já não amava Mateus da mesma forma, e nem poderia. De um lado Edgar, um cara que eu acabara de conhecer e suas referencias não eram as melhores, do outro Mateus o menino religioso que vive uma vida dupla, pena não existir chapolin colorado.

Depois de muito pensar eu decidi deixar as coisas acontecerem naturalmente. À noite fui à igreja, queria ver Mateus e me surpreendi com os olhares das pessoas. Eles me condenavam com seus olhares, fiquei sem entender. Quando terminou o culto fui falar com Irmã Lúcia que me explicou o porquê dos olhares acusativos. Fiquei enfim sabendo que Mateus disse a toda igreja que fora seduzido por mim e todos acreditavam que eu o influenciara a homossexualidade, fiquei arrasado. Fui pra casa pesado.

Fiquei a refletir a respeito de a homossexualidade ser algo externo ao nosso corpo, como eu poderia influenciar alguém a algo que é inato ao ser humano nesta condição. Realmente a igreja está carregada de muitos preconceitos.
Na Manhã seguinte as nuvens de chuva estavam a me avisar que teríamos um dia bem agradável e foi neste clima que recebi a visita de Edgar, eu não poderia definir o quanto fiquei feliz, só pude demonstrar o beijando, como se estivéssemos a meses distantes. Ele se surpreendeu, mas adorou. Ele fora na minha casa me avisar que havia sido aprovado no último concurso e que agora poderia assumir sua homossexualidade com segurança e também assumir nosso namoro. Fiquei gelado de novo, mas fiquei gelado de feliz. Assumir nosso namoro? Quer dizer que antes ele nunca havia assumido nada por não ter estabilidade financeira e não por preconceitos? Mas porque batera no Clóvis, o que realmente teria acontecido, eu estava vivendo um dilema e como falar sobre isto com Edgar. Deixei estes questionamentos pra depois e tratei de curtir o momento. Edgar se mostrara perfeito, era como se previsse meus pontos de excitação, mãos e corpo me deixavam sem juízo. Terminamos a manhã almoçando juntos e ele voltou a sua casa pra organizar a papelada e assumir seu cargo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010




Capitulo 9

Vingar a morte do meu amigo era o que me movia. Naqueles dias não consegui ter alegria. Só pensava em como não deixar passar em branco o que Edgar fez a Clóvis. Foi quando recebi uma ligação do Mateus, ele havia conversado com Brígida e estava extremamente chateado com o que acontecera e se dispôs a ajudar no que fosse preciso. Mateus era amigo de Edgar e conhecia os gostos e lugares freqüentados por ele.

Resolvi visitar um amigo que mora numa cidade vizinha aqui mesmo na ilha. Existem quatro municípios dentro da ilha de São Luís (também chamada de upaon-açu), São José de Ribamar, Paço do Lumiar, Raposa e nossa capital São Luís. Quando estava voltando para casa resolvi parar num bar, foi quando encontrei Brígida e Paloma que me convidaram a beber e dançar numa festa LGBT que estava “rolando” em um bar recém inaugurado no centro histórico da cidade no coração do reviver (Nome do projeto de revitalização do centro histórico onde se encontram as principais casas de festas LGBT). Eu estava animado, Paloma estava sozinha em casa e propôs uma festinha particular, Brígida sem titubear aceitou, eu fiquei um pouco receoso afinal elas iriam convidar alguns “carinhas” pra nos acompanhar. Elas convidaram quatro garotos. No meio da festa chegaram Mateus e Edgar, meu coração ficou frio. Deu-me vontade de encontrar um buraco e enfiar minha cabeça. Aquele era o ultimo lugar onde eu gostaria de estar. Bebi uma caipirinha e me joguei na pista, sem perceber Mateus se aproximou de mim e de repente começou a beijar uma “piquena” (expressão usada em São Luis para se referir a garotas). Foi como jogar um balde de água em um palito de fósforos (não que eu pareça um, rsrs).

Sentei-me em uma mesa que coincidentemente estava de frente para a mesa de Edgar. Ele me olhava fixamente, nem imaginava que queimava dentro de mim o fogo da raiva por saber da historia dele com Clóvis. Foi quando Brígida resolveu convidar Edgar pra ir à festinha na casa da Paloma. No inicio detestei a idéia, mas depois pensei que seria importante me aproximar pra descobrir uma forma de desmascarar o cara que fez tanto mal a meu melhor amigo.

Já eram duas da madrugada quando resolvemos sair da festa e ir à casa da Paloma. Brígida convidou Edgar, mas eu pedi, implorei para não convidar Mateus, pedido este que foi negado. Bom, chegamos à casa de Paloma e os meninos foram logo para cozinha preparar um lanche, estávamos todos com fome. Eu tive que fingir que a presença tanto de Mateus quanto de Edgar não me incomodava. Edgar se mostrou um brincalhão e todos já estavam chateados. Foi quando resolvi socializar com ele. Deitamos-nos no sofá e ficamos um do lado do outro, ele me olhava nos olhos e dizia que nunca havia deitado tão perto de um cara. Tive que conter minha ânsia de vomito, mas fui um bom ator, e comecei a usar isto a meu favor. De uma forma muito sensual dirigi a conversa, e perguntei o que ele sentia com a novidade de estar ao meu lado, neste momento coloquei minha perna sobre a dele e comecei a dedilhar sua barriga que por sinal era linda. Edgar tem um corpo muito bonito, em todo tempo eu pensava que aquele corpo estava sendo usado pelo espírito errado. No final da conversa ensaiamos um beijo, mas ele recuou como se fosse estranho. Aquele seria o primeiro passo para efetuar minha vingança.

Tal vingança consistia em ter um romance com Edgar e expor isto a todos de forma a deixar claro que ele no mínimo era bissexual. Que para um cara preconceituoso como ele era o fim.

O dia raiou e todos nós fomos pra casa.

Dormi a manhã inteira e logo no inicio da tarde fui acordado pelo celular tocando, era Edgar Me convidando pra ir a uma festinha na casa dele. Nem sei como ele ainda tinha pique pra fazer mais festa. Não pensei duas vezes e aceitei o convite. O estranho é que aceitei com uma alegria que me fez esquecer por alguns instantes quem era Edgar e o que representou na vida e morte do Clóvis. Tomei um banho caprichado, coloquei a roupa que eu mais gosto e fui à casa de Edgar. Quando cheguei não havia festa alguma, ele estava sozinho, vendo “P.S I LOVE” um filme que sou apaixonado. Quando ele me viu foi logo explicando que na verdade ele queria me ver e ficar a sós comigo e se me convidasse pra ver um filme sozinho com ele eu poderia não aceitar, o que seria uma péssima noticia. Naquele momento comecei a lembrar do que ele fizera a Clóvis, do braço quebrado, da surra que deu em meu amigo. O clima romântico pelo menos pra mim acabou. Fui frio e quando o filme acabou ele me pediu um beijo, eu fiquei sem ação, mas resolvi dar. Ele me segurou e me deitou em seus braços, era como se eu estivesse no lugar mais seguro do planeta, me beijou como se me acariciasse com um cuidado de quem estava apaixonado. Por cinco segundos novamente ele me fez esquecer tudo e todos e só existiam nós dois, tudo parou e a única coisa que se movia eram nossas bocas e mãos e claro nossos corações que batiam a mil. quando esse mix de sensações acabou pedi para eu sair, estava confuso e precisa respirar, pensar no que tava acontecendo. Ele ficou sem entender, mas me permitiu sair.

Fui pra casa e fiquei a pensar no que tava acontecendo, afinal eu não deveria me envolver com Edgar, que por sinal estava mostrando ser bem diferente do que Clóvis descrevera.

terça-feira, 15 de junho de 2010

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Jamais impedirei que me ames. Cap 8


Aquela noite realmente foi inesquecível. A lembrança de Clóvis no ar seguro apenas pela corda, teimava em grudar nos meus pensamentos. Depois de muito tentar, consegui dormir.


No dia seguinte, acordei cedo com um telefonema, era Mateus aflito com o que acontecera. espantado, afinal Clóvis freqüentava a igreja e sendo assim ele sabia que iria direto pra o inferno. Fui bem rude com Mateus, afinal o que menos importava naquele momento era estas conclusões religiosas e sim o estado da sua família. Sempre vi nestas pessoas que se importam tanto com o destino póstumo dos outros muita hipocrisia.


Depois de falar com Mateus. Resolvi ir ao velório. Coloquei uma roupa preta em sinal da minha tristeza. Encontrei Brígida que logo cedo já estava a caminho da casa da família de Clóvis. Brígida me perguntou como pode Clóvis com o braço quebrado amarrar uma corda no teto. Realmente era intrigante, eu não detinha a resposta. Fomos cheios de indagações ao velório.


Logo quando cheguei a mãe de Clóvis, dona clara, me abraçou e contou que antes de aparecer com o braço quebrado Clóvis já havia amarrado a corda, alegando querer armar uma rede. Desde criança Clóvis adorava dormir em rede. Depois de falar estas coisas ela me perguntou se ele me disse como quebrou o braço. Eu fiquei frio. Ela continuou, dizendo que ele explicou que caira da goiabeira da minha casa. Eu apenas confirmei.


O pai de Clóvis, seu Mauro, estava muito triste. O Pastor da família chegou e deu uma palavra de apoio a familiares e amigos. Ninguém tocava no assunto temido da homossexualidade parecia que queriam pôr uma pedra nesta história. Mas eu acreditava que colocar uma pedra nesta história era negar o próprio Clóvis e tudo que ele viveu. Quando pensei isto tomei uma decisão. Pedi um espaço depois do sermão do Pastor.


Neste momento pedi a dona Clara para eu ler a carta de despedida de Clóvis. Ela prontamente atendeu meu pedido. Quando já estava com a carta em minhas mãos o pastor terminou a palavra e eu ergui minha voz.


- Sou um amigo muito próximo do Clóvis, eu o amava muito e estou muito triste por sua morte. Mas tem uma coisa que não posso admitir. Que ele tenha morrido em vão. Sei o motivo que o levou a dar cabo de sua vida. E quero que todos tenham consciência disto. Por isto vou ler a carta de despedida que ele deixou a sua mãe,mas que de alguma forma pode nos ajudar a cuidarmos mais de nossos filhos e filhas, de nossos amigos e vizinhos.

Neste momento li em voz alta a carta de Clóvis.


Todos ficaram espantados, dona clara perecia ter entendido minha ousadia como uma ultima homenagem ao meu querido amigo. Mas seu Mauro, aparentemente irado, retirou-se do ambiente. Os parentes e amigos ficaram muito pensativos e eu tive a plena certeza que ali a morte do meu amigo não foi em vão.

No final da tarde Clóvis foi cremado, este sempre foi um desejo dele. Quando eu estava a caminho de casa vi Edgar, minha vontade era de pular em seu pescoço, mas tive que me conter.


Queria poder voltar ao tempo e refazer toda esta história, mas no mundo real as coisas não acontecem assim. Por conta da intolerância eu muitas vezes pensei em tirar minha vida, mas minha fé em Deus e minha certeza que Ele me ama sempre me mantiveram vivo. Pensei naquele final de dia que poderia trabalhar, militar pela causa. Estava disposto a ajudar, aprender sobre minha sexualidade e tentar mudar um pouco o mundo que nos rodeia.

domingo, 6 de junho de 2010

Jamais impedirei que me ames, CAP 7


Capítulo 7

O que previ realmente aconteceu. Em vez de me ligar, Clóvis foi até minha casa. Nem acreditei quando vi Clóvis, tava com o braço quebrado e muito triste, seus olhos estavam inchados e as lágrimas não paravam de rolar. Fiquei sem entender.

O que houve? Perguntei.

- Contei para o Edgar que falei a você do nosso encontro e ele ficou irritado disse que não era bicha e que mais cedo ou mais tarde eu contaria pra outras pessoas. Eu disse que ele não poderia ser Hétero, afinal tinha ficado comigo. Edgar virou uma fera e começou a me bater e gritar que me mataria se eu contasse pra mais alguém. Mas o pior não foi nada disto. Ele tentou me estuprar. Pegou uma faca na cozinha e disse que eu iria transar com ele querendo ou não, pra eu aprender a respeitar cara de macho. Eu estava espantado e muito nervoso, não havia clima. Quando eu tentei fugir eu acabei caindo na escada, depois ele desceu e começou a me chutar e cuspir em mim. Eu quebrei o braço e como dar pra ver estou todo machucado. O pior de tudo é que meus sentimentos estão dilacerados, meu coração está envergonhado de acreditar que poderia amar o Edgar, mesmo sendo “bofe”.

Depois de ouvir tudo isto, eu abracei meu amigo. Choramos juntos. Clóvis é um menino que sofreu muito na vida por ser Gay. a família dele sempre o tratou de forma diferente de seus irmãos héteros seu Pai sempre foi muito duro, sua mãe tentava acalmar as coisas NE casa dele sempre que a temática homossexualidade entrava nas conversas ou discussões em família. Na verdade nem sei o que seria do Clóvis sem sua mãe. Carinho materno foi o que sempre manteve Clóvis vivo. e quando ele finalmente achou encontrar um homem que o daria carinho acontece tudo isto. e eu não poderia naquele momento dar lição de moral.

A vida dos Gays costuma ser difícil, afinal nós somos, geralmente, criados de forma diferente. Não nos tornamos gays pela forma como somos criados e sim somos criados de forma diferente por sermos gays. E com Clóvis não era diferente. Mas o que estava me angustiando era o fato de Clóvis ser muito emotivo e ter alguns preconceitos religiosos em relação a sua sexualidade. achar que Deus nos abomina faz mal e deixa nosso alto-estima lá em baixo.

Naquele momento Clóvis se deitou na minha cama e eu comecei a tocar violão e tocar alguma música feliz pra distraí-lo, cantei uma música da Vanessa da mata, quando um homem tem uma mangueira no quintal, ele adora a letra desta música, morre de rir. Logo estava dormindo.

Fiquei olhando pra ele dormindo e não conseguia ver além de um menino simples e normal. Que sonhou e quebrou a cara, que viveu uma vida difícil e merece tanto um amor, uma vida tranqüila. Como já disse cazuza, a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida.

Depois de uma hora, ele levantou e disse que iria pra casa. Despedimos-nos e ele me deu um abraço muito apertado. Dizendo que eu tinha sido a pessoa mais legal que havia conhecido na vida e que pra sempre ele me levaria em seu coração. Eu agradeci e ele saiu.

Duas horas depois recebi uma ligação, a mãe de Clóvis desesperada. Em meio a choros não conseguiu falar nada, desliguei o fone e fui a sua casa.

Quando cheguei havia carros da polícia e muitas pessoas. Eu consegui entrar e não posso descrever como foi terrível a cena que vi. Clóvis havia amarrado uma corda no teto do seu quarto e suicidou-se. Eu não podia contar as lágrimas. A mãe dele inconformada correu pro meu abraço. Choramos muito. Ela estava com um papel na mão. Era uma carta. Deixada por Clóvis. Aquela noite foi terrível pra todos nós.

Clóvis disse em sua carta:

"Eu não escolhi ser assim. Por tantas vezes perguntei pra Deus, porque eu? Entre tanta gente, justo eu fui nascer gay? Eu não posso mudar isto. Carinho? Nunca tive. a não ser de você mamãe. Por isto a você deixo esta carta, a única pessoa que me amou de verdade. A você dedico meus 19 anos de vida. Desculpa não ter forças pra suportar a sociedade que me apedreja com seus pré-conceitos. Diga ao papai que o amei muito apesar de todas as vezes que apanhei por brincar com as bonecas da Maria Lúcia, ou quando me cobrava namoradas mesmo sabendo da minha orientação sexual. Também digo aos meus irmãos que os amei sempre. Desejo um dia reencontrar a senhora. Mas não quero mais viver, sofrer e não ter amor. Sabe mamãe não é fácil. Não foi fácil. Adeus."

Clóvis Ferreira.

terça-feira, 1 de junho de 2010


Capítulo 6

Quando cheguei em São Luís recebi uma ligação, era Clóvis. Fiquei muito feliz, pois fazia uma semana que não nos falávamos e como tudo na vida, parecia que tudo estava diferente com ele. Em uma semana ele conheceu o “amor da sua vida”. Ligou-me e falou exatamente como aconteceu.

No meio LGBT as coisas costumam acontecer de forma muito rápida, você encontra uma bicha hoje e ela te apresenta um namorado e na semana seguinte você a encontra e ela te apresenta outro. Com Clóvis era diferente, ele nunca havia me apresentado algum namorado e pela primeira vez estava loucamente apaixonado.

Era um visinho, lindo, negro, magro e alto (que inveja, RS). Mas com um defeito era Hétero (só falo que é defeito, pois pela lógica heteros não se apaixonam por homos). Perguntei então como aconteceu à aproximação.

Clóvis começou:

- estávamos num bar aqui perto, estava eu e uma amiga numa mesa de frente pra dele. Ele estava sozinho e eu o convidei pra sentar conosco, ele aceitou e conversamos muito, ele disse que estava triste, pois sua namorada terminou o relacionamento e viajou para Santa Catarina. Minha amiga estava com um encontro marcado e teve que sair, ficamos sozinhos. Eu comentei que eu estava sozinho em casa e ele propôs levarmos uma bebidinha para lá e conversarmos melhor. E assim aconteceu. Quando chegamos em casa, ele me pediu uma bermuda emprestada, pois ele estava suado e queria trocar de roupa, nunca tinha reparado no corpo dele, que lindo, fiquei cheio de tezão. Mas disfarcei. De repente ele deitou em minha cama e ficou ouvindo musica no meu quarto, enquanto isto eu estava preparando uma bebida, fiz uma caipirinha com gelo. Fui pro quarto e deitei na cama junto dele. Ele pediu pra eu fazer cafuné em sua cabeça, eu prontamente fiz e resolvi fazer uma brincadeira, tirei um gelo da caipirinha e coloquei em seu peitoral.

- Arrasou amigo! Interrompi.

E Clóvis continuou:

- perguntei o que ele tava achando, ele respondeu que era excitante. você pode imaginar o quanto a sua resposta me excitou. Daí conduzi com a boca o gelo pelo corpo dele, que a essas alturas já estava despido. Conduzi o gelinho até seus lábios e aconteceu o que eu menos esperava, um lindo e molhado, gostoso, não existem adjetivos suficientes em nossa língua pra descrever aquele beijo. Depois do beijo foi só alegria, transamos a noite inteira. E no dia seguinte tomamos café juntos e ele foi pra casa, demos um beijo de despedida e ele me orientou a não me acostumar. Mas já estou apaixonado. E agora?

- Agora toma cuidado, pois bofe é comida de cachorro. Tudo bem que você deu, mas daí a se apaixonar? Agente se apaixona por homossexuais como agente e não por estes bissexuais que acham que são Héteros e nos machucam no final.

- é verdade amigo, mas agente não manda no coração. Hoje à tarde marquei com ele de nos encontrarmos amanhã aqui em casa. Estarei sozinho.

- ok, me deixa a par de tudo hein?

- ok até mais!

Desliguei o telefone e fiquei pensando preocupado com Clóvis, afinal como já disse antes, bofe é comida de cachorro.